quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Feira de Troca de Sementes Crioulas promove o debate sobre a conservação

 Por Lidiane Santos / Comunicadora da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 2



A Rede de Sementes Crioulas do Agreste Meridional de Pernambuco (Rede SEMEAM) vai realizar no dia 24 de novembro de 2016, das 8h às 15h, no Parque Euclides Dourado, em Garanhuns (PE), a 3ª Feira de Troca de Sementes Crioulas. Neste ano, o evento terá como tema “Sementes Crioulas: Patrimônio da Agricultura Familiar” e reunirá bancos comunitários de sementes da região, além de organizações da sociedade civil, órgãos públicos e visitantes vindos de todas as regiões do estado. A entrada é gratuita.

Além do foco principal, que é a exposição e trocas de sementes, a programação do evento conta com palestras, oficinas e atrações culturais. No período da manhã, será lançado o manual “Metodologia para Formação de Bancos Comunitários de Sementes”, que faz parte da Coleção de Extensão Rural Nº 04, do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA). Será discutido, ainda, a criação de um Programa Piloto de Distribuição de Sementes Crioulas e Formação de Bancos Comunitários de Sementes no Agreste Meridional de Pernambuco. À tarde, será realizada uma oficina intitulada “Produção de Mudas de Árvores Nativas através de Sementes”, que será ministrada pelo técnico em Agroecologia Everaldo Rodrigues, do Projeto Mata Viva.

REDE SEMEAM – Criada no ano de 2015, a Rede de Sementes Crioulas do Agreste Meridional de Pernambuco é fruto da articulação entre organizações da sociedade civil, órgãos públicos e agricultores/as familiares que participaram do processo de organização da 2ª Feira de Troca de Sementes Crioulas. Com o objetivo de ser um espaço permanente de discussão em busca do resgate e da preservação das mesmas, a Rede vem se fortalecendo através da realização de atividades, como seminário, resgate e plantio de sementes, além da participação em outros eventos sobre a temática. A Cáritas Brasileira Regional Nordeste 2 é uma das organizações que compõe a REDE SEMEAM.

De acordo com o membro da Rede, Pedro Balensifer, entre os desafios encontrados pela articulação está o da busca pela conscientização dos próprios agricultores em torno da preservação das sementes, para que eles não sejam prejudicados com a perda das variedades locais. “Sem os bancos, a probabilidade de perda e desaparecimento das sementes é muito maior, mas isso passa por um processo de sensibilização em nível comunitário para que as famílias envolvidas entendam a importância da organização e possam guardar as próprias sementes”, explicou.

SEMENTES DO SEMIÁRIDO – Entre 2015 e 2016, a Cáritas Brasileira Regional Nordeste 2 foi parceira do Centro Sabiá na execução do Programa Sementes do Semiárido, da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA). Além do resgate de variedades que estavam praticamente extintas, o projeto também incentivou a discussão em torno da conservação das sementes, a partir da organização comunitária e da gestão compartilhada. No Agreste Meridional de Pernambuco, cinco municípios foram contemplados com a construção e reforma de banco comunitários de sementes, são eles: Angelim, Calçado, Canhotinho, Jupi e São João.

Para Arley Gomes, que foi o técnico responsável por acompanhar o projeto nesta região, os resultados do Programa já podem ser vistos, embora a conclusão tenha acontecido recentemente. “No que se refere aos desafios, podemos elencar o resgate de algumas sementes que estão em processo avançado de “desaparecimento”, entretanto é possível observar que os principais avanços são os grupos de agricultores/as conscientes e organizados em prol da preservação das sementes. As famílias estão em processo de autonomia e soberania e, sobretudo, que estes bancos funcionem como verdadeiras arcas de biodiversidade dos roçados do Semiárido brasileiro”, concluiu.

SERVIÇO:
3ª Feira de Troca de Sementes Crioulas do Agreste Meridional de Pernambuco
Data: 24 de novembro de 2016
Horário: das 8h às 15h
Local: Parque Euclides Dourado, em Garanhuns (PE)
A entrada é gratuita.
Contatos: rede.semeam@gmail.com

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A experiência familiar no manejo e conservação da Agrobiodiversidade

Por Carlos Henrique Silva* e Clóvis Calado**
* Carlos Henrique Silva é comunicador da Diaconia
* Clóvis Calado é comunicador da Fetape


Dentre os momentos de intercâmbio de experiências no Encontro Estadual da ASA Pernambuco, realizados na última quarta (05), um dos grupos participantes visitou a propriedade de Vilma e Tadeu Lino, família agricultora do Sítio Apolinário, município de Triunfo. O manejo e a conservação da Agrobiodiversidade foi o tema desta experiência, que comprovou a capacidade das sertanejas e sertanejos para a convivência e resistência, diante dos desafios do Semiárido.

Após uma breve conversa de apresentação, o grupo, formado por agricultoras/es, representantes de movimentos sindicais e técnicos/as das instituições, quis logo conhecer o sítio de dona Vilma, que ocupa cerca de 1 hectare de área. Em meio ao momento de estiagem, a agricultora cultiva árvores frutíferas apropriadas ao bioma da Caatinga, com os pés de banana, graviola, limão, laranja, caju e manga, dentre outras.


Com o material que se perdia, surgiu a ideia de aproveitar a palha das bananeiras para produzir artesanato. Com capacitações e conhecimento, o material foi aperfeiçoado e hoje dona Vilma fornece o material em forma de embalagens para o comércio e indústria locais. Junto com o reaproveitamento dos restos de madeira, o esposo Tadeu Lino também produz arte e a família gera renda a partir da riqueza de sua própria terra.


Uma área de criação de animais também está reservada para quando as condições melhorarem: “Aqui a gente criava porco, cabras, ovelhas, mas não deu pra continuar criando por causa da seca. Mas pretendemos voltar a criar”, afirmou dona Vilma, esperançosa.


A produção de grãos também é garantida a partir do armazenamento de sementes nativas e herdadas da família: “Nunca precisei pegar as sementes que são distribuídas pelo governo. A gente sempre separa o milho, feijão guandu e muitas outras, mesmo que a colheita seja pequena.”



Após a circulada pela propriedade, o grupo se reuniu para um bate-papo em um abrigo coberto pelo telhadão da cisterna construída através da parceria da Adessu Baixa Verde e a organização alemã KNH, espaço que também serve para as reuniões comunitárias. Dona Vilma compartilhou um pouco de sua história na linha do tempo construída junto com a equipe da Adessu, lembrando o momento em que chegou à localidade, quando somente plantava e queimava cana-de-açúcar, quase tornando a terra infértil. Hoje, além das práticas agroecológicas, faz parte de sua rotina até a preocupação em não deixar o lixo da casa acumulado na propriedade.

O momento também serviu para compartilhar as incertezas das famílias quanto ao futuro incerto, de suspensão de programas voltados aos pequenos agricultores para aquisição de alimentos (PAA), alimentação escolar (PNAE), crédito (Pronaf) e habitação rural (PNHR). Uma das conclusões apresentadas foi a importância de manter a mobilização das comunidades e associações comunitárias, para que se retome a confiança e a representação nos espaços políticos.


Curso gratuito de agroecologia com inscrições abertas


por Romário Henrique

O Serviço de Tecnologia Alternativa – SERTA abriu inscrições para o Curso Técnico de Nível Médio em Agroecologia – Eixo Recursos Naturais nas Unidades de Ensino Glória do Goitá e Ibimirim. A oferta é de quatrocentas vagas para quem tem interesse em aprimorar habilidades no universo da agricultura familiar. O curso é gratuito e tem duração de dezoito meses.

As inscrições seguem até o dia 6 de dezembro, e devem ser realizadas através do site da instituição: www.serta.org.br. Podem participar estudantes com Ensino Médio completo, e que possuam disponibilidade e interesse em desenvolver e aprimorar atividades profissionais ligadas à agricultura, pecuária, ao meio ambiente, à agregação de valor e beneficiamento, comercialização, agricultura orgânica, agroecologia, dentre outras atividades.

O curso será desenvolvido em regime de alternância, com atividades presenciais e de tempo comunidade, totalizando 1.200 horas/aulas e mais 200 horas de estágio curricular supervisionado. Possui registro profissional do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Pernambuco (CREA-PE) e é credenciado pelo Conselho Estadual de Educação de Pernambuco.

A formação técnica é atualmente financiada pelo Governo do Estado de Pernambuco, por meio da Secretaria Estadual de Educação.

Sobre o SERTA

Uma instituição com 27 anos dedicados a formação, com unidades de ensino nos municípios pernambucanos de Ibimirim, Sertão do Moxotó, e em Glória do Goitá, na Zona da Mata. Tem como Missão formar jovens, educadores e produtores familiares para atuar na transformação das suas circunstâncias e na promoção do desenvolvimento sustentável do campo.

Escola Transformadora

O Instituto Alana e a organização Ashoka reconheceram o SERTA, por meio da experiência exitosa da Escola Técnica, como parte da comunidade de escolas transformadoras no Brasil e no mundo. O Serta se soma a uma comunidade global de mais de 250 escolas em 28 países de todos os continentes. A iniciativa repensa os paradigmas da educação, e vem transformando realidades na saúde, cultura e educação para a sustentabilidade dos povos rurais.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Educação que valoriza o saber local transforma realidade


Por Kátia Rejane - Comunicadora do Caatinga
Se os trabalhadores do campo são sujeitos de cultura, são sujeitos de libertação” Miguel Arroio.


Com essa motivação a escola de Baraúnas no município de São José do Egito, foi uma das experiências apresentadas no Encontro Estadual da ASA, a escola vem trabalhando desde 2002 a proposta de educação contextualizada para convivência com o semiárido.

A escola trabalha a partir da realidade dos/as alunos/as numa perspectiva da convivência com o semiárido a partir da cultura popular. Uma conquista do município é a inclusão da disciplina de Poesia popular nas escolas municipais de São José do Egito, o que permite que a partir da identidade cultural as crianças e jovens entendam o meio em que vivem de onde vem como se veem no mundo. “Eu aprendi a ler lendo cordéis, meu pai lia muito cordel e isso me estimulou na aprendizagem” diz a Professora Elaine, gestora da Escola de Baraúnas.


A Professora conta que os desafios para a continuidade da proposta de educação contextualizada para a convivência com o semiárido são grandes e destaca a ausência de formação especifica para educadores/as, a descontinuidade das equipes de educadores/as, pois por serem contratos temporários não permanecem na escola em momento de troca de governo municipal, por essas dificuldades a escola de Baraúnas resolveu investir em três estratégias mais especificas de resistência: O trabalho com a cultura popular, as aulas de poesias populares que fazem parte da grade de disciplinas do município é realizada na escola de Baraúnas de maneira mais intensa através do envolvimento de artistas locais e para além da poesia estão presentes danças típicas do território como xaxado, produção teatral a partir da literatura de cordel. 

Outra estratégia é a comunicação, a escola possui uma rádio escolar que funciona no horário do recreio onde são divulgadas para a comunidade escolar as produções dos estudantes e convidadas pessoas da comunidade para apresentações culturais, a produção de um boletim escolar que divulga as ações da escola. Outra forma de comunicar é através dos veículos que procuram a escola para sistematizar a experiência através de vídeos, banners, reportagens e boletins.

A estratégia das parcerias é fundamental segundo a gestora da escola a primeira parceira é a comunidade local através da associação comunitária e grupo de mulheres, além das organizações que compõem a ASA como Diaconia que contribui fortemente nas oficinas de xilogravura, cordéis, e temas mais relacionados ao meio ambiente e agroecologia e Serta que foi o grande incentivador na construção da historia da escola com a proposta de educação contextualizada.
A gestora destaca o amor que as famílias das comunidades que compõem a escola sentem pela mesma e a importância da valorização do saber dos/as agricultores/as, a satisfação em contribuir com a escola. “Eu não sabia que eu sabia ensinar” diz um agricultor quando convidado para dar aula na escola.









ADESSU mostra que é possível ter sucessão de juventude rural no semiárido pernambucano

Por Emanuela Castro / Comunicadora da Casa da Mulher do Nordeste

“Lembro do primeiro dia em que fomos facilitar o curso de GRH do Programa 1 Milhão de Cisternas. Uma senhora me perguntou quanto tempo ainda faltava para chegar a pessoa da capacitação. E respondi: Sou eu a pessoa que vai estar com vocês. E tive como resposta: Humrum.  A descrença é geral, mas sempre no final somos reconhecidos como sujeitos de conhecimento”, contou Raiany Diniz, de 21 anos, durante o intercâmbio de experiência sobre  juventude e sucessão rural,  na sede da ADESSU, em Triunfo.

A experiência que aconteceu na última quarta-feira (05) foi uma das seis experiências apresentadas à agricultores e agricultoras do Sertão e Agreste de Pernambuco, durante o Encontro Estadual da ASA-PE.  Com 20 anos de resistência e luta, a ADESSU se renova a cada ciclo com jovens atuantes e mobilizadores de direitos humanos, e na defesa da agroecologia. Iniciado por 6 jovens em 1990, a organização permanece com o corpo da coordenação formado por jovens que participam de formações durante os ciclos.

Apostam na difusão de conhecimentos no protagonismo juvenil, na comunicação através de programas de rádios, em intercâmbios, em ações nas Escolas, e na criação de áreas de referências em agroecologia. Para Dyovany Otaviano, presidente da Associação Cultural de Jovens Rurais do Riacho de Pedra, de Cumaru, no Agreste Setentrional, a experiência da ADESSU é inspiradora. “Eu achei interessante a implantação de áreas de referências, são estratégias de multiplicar o que está dando certo. Como a nossa associação também é formada por jovens e tem trabalho com agroecologia, é uma ótima ideia para nos fortalecer no território”, completou.

Para o jovem coordenador Elias Freire, 20 anos, é importante reconhecer o envolvimento e a parceria da ONG Centro Sabiá, a KNH e a Articulação do Semiárido Pernambucano, no fortalecimento da gestão, formação e incidência política na região. “O nosso incentivo a sucessão rural é para continuarmos na luta contra as cisternas de plásticos, contra o fechamento das escolas rurais, contra o uso do agrotóxico, e por uma vida digna no campo”, completou.

Com atuação nos municípios de Triunfo e Santa Cruz da Baixa Verde, e também em mais 7 municípios da região, conseguiram atender 350 crianças e 250 famílias.  Entre as ações, também foram protagonistas na construção de 2 mil tecnologias de acesso à água para consumo e produção, bem como a implementação de banco de sementes. “Começamos crianças, e passamos por todo o processo de formação e atuação na instituição. Se não fosse a ADESSU, não sei o que seria de mim hoje. Com certeza estaria em São Paulo, trabalhando como vendedora em alguma loja, como desejava meu pai. Isso era tudo que eu não queria. Gosto das minhas raízes. Meu lugar é aqui”, contou a coordenadora Raiany Diniz. 

Na sua história, a ADESSU acompanha os jovens e suas dinâmicas, por esse motivo, as temáticas se renovam a cada ano. Já tiveram projetos voltados para a música e o teatro, e nas formações a discussão da sexualidade e afetividade são prioridades. Outro momento importante foi a criação da Cooperativa de Produção da Agricultura Familiar e Agroecológica (Coopcafa), em 2011. Coordenado por jovens, com mais de 38 cooperados, tem como objetivo escoar a produção agroecológica das famílias atendidas pela ADESSU, e ampliar o acesso à mercados. Hoje a Coopcafa agrega uma Unidade de Beneficiamento de produtos, e faz a distribuição de rapadura, açúcar mascavo e vários outros produtos derivados do açúcar.

Como já dizia o grande educador Paulo Freire sobre o significado de empoderamento – “a pessoa, grupo ou instituição empoderada é aquela que realiza, por si mesma, as mudanças e ações que a levam a evoluir e se fortalecer”.  Assim são os jovens da ADESSU, sempre atuando no presente.

Assessoria Técnica e Extensão Rural – ATER

Por Roseane Moraes/Comunicadora da ADESSU Baixa Verde


A manhã do segundo dia do Encontro Estadual da ASA PE é marcada pelas visitas às experiências de agricultores e agricultoras do Pajeú. Algumas delas foram apresentadas no próprio espaço do Stella Maris, como é o caso da Assessoria Técnica e Extensão Rural, que teve sua linha do tempo facilitada por Giovanne Xenofonte, do CAATINGA, organização que já desempenha um trabalho firme no sertão do Araripe, voltado para a Assessoria Técnica e Extensão Rural.

O debate sobre o tema, principalmente para o Nordeste, foi iniciado e teve suas reflexões direcionadas a partir de quatro eixos: a evolução dos serviços da ATER, as ações do Estado e políticas públicas, a organização dos agricultores e agricultoras e os espaços de controle social, retratando os principais e relevantes acontecimentos ao longo do tempo, desde as primeiras expressões ligadas à assessoria técnica rural no Brasil e no Nordeste, até os dias atuais.

Ao longo da facilitação o público participante, que envolvia agricultores, agricultoras, técnicos e técnicas das organizações que compõe a ASA PE, assim como as organizações convidadas, tiveram a oportunidade de também contribuir na construção/complementação da linha do tempo, relembrando acontecimentos determinantes para ATER, provocando discussões, e partilhando experiências das suas realidades e territórios.

A partilha e o compartilhamento das experiências, realidades e a própria ferramenta da sistematização, através da elaboração da linha do tempo, possibilitou aos participantes visualizar a evolução e inserção das organizações na construção da assessoria técnica, a evolução da própria ATER, e os sujeitos que foram sendo envolvidos nesse processo, como é o caso das mulheres e da juventude. 

Os debates também giraram em torno de questões do papel das organizações que compõem a ASA PE, o papel do Estado, o papel histórico da ASA nos territórios, sobre o significado do momento atual brasileiro e as estratégias para evolução e universalização da Assessoria Técnica e Extensão Rural.

“A ASA dá uma dica através de suas ações, que o caminho da ATER no Semiárido, tem a perspectiva para além da construção de tecnologias sociais, mas efetivamente construir conhecimentos nos vários campos, diz Giovanne”.